segunda-feira, 18 de abril de 2016

LIVRO

Na pele de uma Jihadista

O domingo 17 de abril de 2016 foi considerado uma data "histórica" para o Brasil. Um processo de admissibilidade de impedimento da Presidente da República em continuar cumprindo um mandato legítimo foi votado por 511 deputados presentes numa sessão histriônica na Câmara Federal. Eu acompanhei tudo isso com um olho e o outro me serviu para devorar a emocionante aventura de uma jornalista francesa que se meteu a investigar o mundo dos jovens aliciados pelo Estado Islâmico e acabou se envolvendo com um terrorista que era membro da hierarquia da ocupação na Síria e no Iraque. Por razões de segurança, tirando os nomes dos terroristas citados, o dos outros personagens da história são todos fictícios, inclusive da autora do livro que prefere ser chamada de Anna Erelle. A minha experiência dominical bate bem com o que ela mesma diz no livro que jornalista é que nem cachorro: está sempre em busca de um osso para roer.

Bilel

A história é real, portanto. Começa como apenas mais uma investida da francesinha no chamado jihad 2.0 da propaganda fundamentalista islâmica. Ela cria um perfil falso no Facebook e se passa por uma quase adolescente, convertida, e muito interessada em conhecer tudo o que tem a ver com a jihad, isto é, a guerra santa dos radicais muçulmanos.  Bisbilhota bastante o tema até o dia em que é abordada por um combatente francês que se encontra na Síria: Bilel. O livro inteiro é o detalhamento desse contato. Bilel se interessa pela garota que a jornalista interpreta – com muitas dificuldades quando as coisas começam a se complicar – e chega a envolvê-la numa aventura maluca que tem por objetivo leva-la para a Síria como sua mulher. Ele é um emir, isto é, uma pessoa que ocupa cargo de confiança numa hierarquia islâmica que gosta de exibir armas, riqueza e tem um discurso duro da religião. Ele considera que o califado vai dominar o planeta e toda a humanidade vai viver segundo as leis da charia, leis fundamentadas não no direito, mas na religião e na opinião de líderes religiosos.

Mélodie

O nome da personagem inventada pela jornalista é Mélodie. O terrorista, na verdade, se apaixona por Mélodie. E esse fato transtorna a vida real da jornalista. Ela que é freelancer de dois jornais e tem um namorado fica completamente atordoada com o que vai descobrindo nas longas conversas no Skype com seu conterrâneo que fala bem o árabe. Ela se veste como muçulmana e diz que o faz escondido da irmã mais velha e da mãe. Personagens que também foram inventados por ela para se fazer convincente, sobretudo, para ajudá-la a sair das conversas quando os diálogos começam a se tornar muito difíceis. Ela sempre diz que a irmã chegou ou que a mãe está subindo as escadas e ela precisa desligar. Aos poucos, no entanto, ela vai descobrindo a personalidade monstruosa do sujeito que a enche de afagos. O que ela não contava é com a aflição que ele impõe sobre ela ao fazer perguntas desconcertantes e que ela não pode responder como uma adulta para não perder o fio da linha da personagem que criou.

Síria em guerra

A matéria é supervisionada por jornalistas com quem a autora vai trocando ideias no correr da investigação e o ápice da confusão se dá quando Bilel resolve por própria conta que ela é sua mulher e já providenciou os papéis para recebe-la na Síria em guerra. A jornalista procura se dedicar a personagem até o limite, quando briga com o terrorista e faz sumir sua personagem. Depois da publicação da reportagem, o nome de Bilel é confirmado como o braço direito de um dos terroristas mais perigosos do mundo: Abul Bakr al-Baghdadi. Entre suas lambanças, as notícias confirmam que ele participava de fuzilamentos em massa, decapitações, queima de pessoas vivas. A história mostra, finalmente, o poder do terrorismo digital. Uma realidade que parece distante para quem vive no Brasil. Pode ser até mesmo desproporcional, mas não consegui dissociar essa história do que se verifica nas redes sociais nos últimos meses: uma guerra absurda e fratricida. Uma linguagem de terror. O impeachment da presidente parece ter se tornado uma espécie de “libertação”, qualquer coisa longinguamente parecida com aquela dos jihadistas. Espero que depois que a presidente sair do Planalto, quem ocupar seu o lugar não deixe a população como Bilel deixou Mélodie: assustada, com medo e profundamente decepcionada.
Rafael Vieira
Aparecida, 18 de abril de 2016

TEATRO


Elogio da Paixão

“A vida vivida com o máximo de intensidade e paixão”, este enunciado foi o que mais me chamou a atenção para ver o espetáculo musical que está em cartaz, até 5 de junho, no teatro dos Correios no centro do da cidade do Rio de Janeiro. Chegamos atrasados porque o taxista, estranhamente, não sabia onde ficava a rua Visconde de Itaboraí. Na entrada do Centro Cultural, no entanto, uma bela surpresa: minha irmã e eu indagamos o guarda sobre o local onde se poderia adquirir os ingressos e ele nos presenteou. “Hoje nos deram ingressos para os funcionários dos Correios e muita gente não veio”. Agradecidos e sorridentes com a situação fomos para a porta do teatro com tempo de beber um café expresso, de fato, pouca gente estava lá para ver a peça. De todo modo, vimos e fiquei muito impressionado com tudo: a música, a interpretação do André Arteche e a série de aforismas de Nietzsche e de Vinicius de Moraes projetados no fundo do palco.

Vinicius de Moares e Tom Jobim

Apesar de ser chamado de “musical”, a peça tem mais acento na dramaturgia. Os dois protagonistas dividem o palco por mais de uma hora e meia com diálogos incríveis. Os palavrões estão na medida certa. Fico meio decepcionado quando o texto se derrama na repetição de palavrões desnecessários. Durante todo o espetáculo, mais de 10 músicas de Vinicius e Tom Jobim são mencionadas, algumas apenas com um verso. Outras são quase que declamadas.  A voz de Marina Palha deixa tudo tão leve, tão gostoso, tão transcendente. Ela, basicamente é a intérprete que dá suavidade ás letras ternas das canções. A voz parece um fio bem fino que vai costurando um tecido grosso e felpudo de modo que, no final, resulte num aconchegante edredon para envolver quem uma pessoa apaixonada. Acho que sei o que é isso. Já estive embrulhado nisso, algumas vezes em minha vida.

Arthur Shopenhauer

O filósofo escolhido para contrapor esses loucos e apaixonados, no entanto, foi Shopenhauer. Seu pensamento sobre o amor poderia, grosseiramente, ser traduzido como “uma perda de tempo”. A vida é curta para que alguém se ocupe com isso. Por outro lado, as máximas do “eterno retorno” de Nietzsche e as afirmações sobre paixão do Vinicius de Moraes embolam um contraponto que mais ou menos quer dizer que sem paixão, a vida não vale a pena. A peça conta a história de um velho ator doente e ensandecido pela paixão que encomenda uma peça a um jovem dramaturgo pessimista e cheio de indisposição. Um está morrendo e o outro precisa de trabalho. Os quadros vão se encaixando e nasce uma amizade incrível entrecortada pela presença de uma mulher suave. Os dois personagens se digladiam de forma inteligente. A peça torna-se uma delícia justamente pela qualidade do texto. E a leveza das canções fazem o espectador sonhar. Me vi cantarolando com os atores.

Tímido afinado

André Arteche é um daqueles atores misteriosos. Ele tem a mesma idade que a personagem que interpreta, isto é, “está perto dos 30 anos”. Nota-se, ao observar o seu rosto em cena, a seriedade na composição do personagem, principalmente porque divide o palco com um Adriano Garib enlouquecido pelo seu Charles apaixonado. Ele permanece na introspecção diante de um exuberante falastrão. Não me pareceu convincente nas poucas vezes que pareceu simular emoção, sobretudo porque recorreu ao gesto óbvio de passar a mão nos olhos para conter as lágrimas. Ele torna-se corretíssimo quando canta. Aparenta uma timidez que eleva o personagem. Garanto que só havia visto uma atuação sua antes na novela da Gloria Perez que está repetindo à tarde e que se trata do universo dos indianos. Sem me esforçar muito sei que ele andou abalando o mundo das fofocas de televisão na pele de um jovem que ajudava a mãe num barzinho de periferia do Rio de Janeiro. Lembro mais de uma personagem do seu núcleo que acabou se tornando um dos grandes sucessos da talentosa Dira Paes que viveu uma personagem ninfomaníaca e que elevou aos primeiros números das paradas de sucesso uma música besta que tinha como refrão: “você não vale nada, mas eu gosto de você!”.
Texto, figurino e Direção: Marcelo Pedreira

Rafael Vieira

Rio de Janeiro, 16 de abril de 2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016

LIVRO

Felicidade pessoal, social e planetária

Felicidade é tema e dilema. É corrente e recorrente na vida da gente. É desejo, sonho, busca. Na verdade, a única razão da existência. As religiões têm sinônimos bacanas, mas no fim, é sempre a boa e velha felicidade que interessa a quase todo mundo. Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortella são, reconhecidamente, um trio de pensadores acima de qualquer suspeita para quem aprecia Teologia, Socialismo e Filosofia. Eles escreveram três textos sobre o assunto - sem se consultarem mutuamente - e o resultado é de uma harmonia rara. Um retrato bastante rico da felicidade. Frei Betto, como sempre, alerta para a necessária dimensão social da felicidade. Boff, como era de se esperar, trata de algo como uma “felicidade cósmica” e Cortella se detém sobre o tempo da felicidade, além de acrescentar elementos fantásticos como a partilha, a abundância e a gratidão. O leitor não tem do que reclamar. E é bom advertir: não é um livro de autoajuda.

Sentido de vida e amizade

Gosto demais do modo simples que Frei Betto assume ao sintetizar que a felicidade se mantém firme e presente na vida da gente sustentada por duas colunas: o sentido que atribuímos à nossa existência e as amizades que fazemos nesse percurso. Fica claro. Lembrei-me do ditado que confirma o fato de que qualquer caminho serve para quem não sabe onde quer chegar. O sentido que damos ao nosso cotidiano em vista de algo maior garante a possibilidade da irrupção da felicidade. E, nesse constante definir e redefinir, consolidar e corrigir o sentido que damos à vida é inevitável olhar à nossa volta. Gente feliz é gente comprometida consigo, com os outros, com o mundo e com as realidades do Mistério. As considerações sociais e os perigos do capitalismo “vencedor” apresentadas por Frei Betto são de grande valia. E as amizades? Irrenunciáveis. Não dá para ser feliz sem amigos.

Felicidade da Mãe Terra

Leonardo Boff faz longas reflexões sobre a importância da felicidade e infelicidade da Mãe Terra. Um organismo vivo. Dela saímos e para ela voltamos. Nela nos movemos. Se insistirmos em ficar alheios ao que ocorre com a Gaia, Mãe Terra, a felicidade não nos alcançará. Nós somos a parte criativa, inteligente e pensante da Terra. A nós cabe a tarefa de reconhecer a necessidade de proteção e de harmonia com os biomas, a biodiversidade e os ecossistemas. Boff se refere a algumas passagens da Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si, para ilustrar a importância de uma nova consciência ecológica. Vale a pena prestar a atenção numa das menções que ele faz sobre os limites da chamada literatura de autoajuda quando trata do tema da felicidade. Na reflexão, há também números atuais e interessantes sobre a situação atual do planeta. É o texto mais longo e, diria, mais denso dos três apresentados no livro.

Momentos felizes

Mario Sergio Cortella mantém sua verve de conferencista. Dá a nítida sensação de ouvi-lo enquanto se lê o texto. E, como ele costuma falar à TV, sua reflexão está entrecortada de exemplos pessoais, citações objetivas e expressões quase bombásticas. O que se repete, no entanto, é que a felicidade é realidade fugidia. Ela nos escapa, sempre. Gosto do modo como ele conclui a partilha de experiências quando diz: “isso me felicita”. Não tenho o costume de associar o verbo ao substantivo. É bacana compreender a felicidade como um movimento parecido, como diz Cortella, com as ondas do mar. Um ir e vir que se renova que faz com que a gente esteja sempre pronto para a surpresa do novo cenário. Ele também insiste na importância da partilha, da abundância e da gratidão. O texto no qual ele identifica a expressão da felicidade no Evangelho é de São João: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” Jo 10,10).

Rafael Vieira
Aparecida, 11.04.2016

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CINEMA


SPOTLIGH - SEGREDOS REVELADOS
Filme (2015) Direção: Thomas McCarthy

O ganhador do Oscar na categoria de “melhor filme” em 2016 é uma obra panfletária, apesar de densa, bem feita e mais compreensível para jornalistas porque destrincha a produção de uma reportagem investigativa de grande poder de fogo. Há quem tenha dificuldades para acompanhar a trama, ainda que a comentarista da Rede Globo, a atriz Glória Pires, tenha dito na entrega dos prêmios da Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme é acessível. Não estou muito convencido a respeito disso. O próprio assunto principal do filme não fica tão claro nos primeiros momentos da história e o ponto de vista é sempre o da redação do “The Boston Globe”. O cotidiano mostrado é o dos jornalistas da equipe que faz matérias que demandam mais apuração de temas quentes. O expectador se dá conta de que se trata  de pedofilia entre o clero católico somente depois de uma boa dose de paciência e atenção. Isso significa que mesmo um filme excepcional tendo o seu tema tratado a partir da lógica jornalística pode não ter um lead muito claro.

Na verdade, o tema do filme é delicado. E, baseado numa história real, conta a difícil escalada para se chegar a uma verdade escondida na Arquidiocese de Boston, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos: a pedofilia praticada por vários padres. A partir da explosão de uma série de reportagens – premiada pelo “Pulitzer”, maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos -  teve início um grave capítulo na história da Igreja Católica no mundo inteiro, em 2002. Vários outros jornais fizeram grandes matérias sobre o assunto e com a criação de uma verdadeira “indústria” de causas na Justiça, passaram ser conhecidos praticantes do mesmo crime em muitas partes do mundo. A massificação do tema chegou ao ponto de colocar a pedofilia e os homens de boa vontade que se dedicam ao sacerdócio católico num cerco injusto, cruel e desumano quando joga sobre de todos uma terrível capa de suspeita por causa dos crimes de alguns padres.

Eu discordo de quem acha o filme apenas técnico. Eu o considero panfletário, não obstante sua explícita seriedade. E nem penso na necessária, heroica e merecedora de aplausos denúncia sobre a pedofilia. Nesse aspecto o filme é corretíssimo. O que me impressionou, particularmente, é que o roteirista não fez uma história para que o expectador saiba de sua denúncia, mas para que tenha repugnância da Igreja. Ao terminar de ver o filme você não apenas sai com pavor de que pessoas que merecem tanta confiança, como os padres, sejam capazes de abusar de crianças. Você sai da sala com raiva da Igreja. A figura real do cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston na época, colocado no início e no final do filme é a prova de que a obra pretende despertar um asco pela Igreja e não pelos crimes que ocorreram em seus domínios. Parece dizer: esse é um bandido que foi premiado pela Igreja. A realidade não chega nem perto disso. O drama pessoal do repórter interpretado por Mark Ruffalo também evidencia esse tipo de propaganda. Ele não se revolta contra a infidelidade de alguns padres criminosos, mas encerra, com dor, sua hipotética volta ao seio da Igreja.


Além de Ruffalo, o filme conta com um elenco espetacular: Michael Keaton, Liev Schreiber, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d'Arcy James. Esse fato, de atores extraordinários terem participado do trabalho, imprime mais verdade a uma obra de cinema que trata da vida real. Ninguém duvidaria aqui no Brasil de uma personagem magistralmente interpretada por Fernanda Montenegro. E todos os atores de “Spotlight” atuam na medida perfeita. Nem excedem na exuberância, nem ficam aquém do brilho próprio de seus personagens. Aliás, há comedimento, sobriedade, determinação. Posturas que se podem ver nas redações sérias de veículos de comunicação que se comprometem com a verdade. As referências feitas à Igreja falham exatamente por causa de um elemento indispensável no jornalismo: a maior imparcialidade possível. No filme, as vítimas são apresentadas. E o lado da Igreja está representado apenas por quem, de algum modo, está relacionado com o crime investigado. Daí, fico pensando se a intenção é despertar para uma imagem da Igreja, seria necessário que ter a representação, mesmo que en passant, de que dentro dessa instituição bimilenar há gente honesta, direita, defensora e  religiosamente cuidadosa com as crianças. A maioria esmagadora, alíás.

Rafael Vieira
Brasília, 29.02.2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

TEATRO

Comentário
TUDO SOBRE NOSSA VIDA SEXUAL
Comédia escrita por Bernardo Felinto com o autor, Fabianna Kami e Vítor Miguel.
Teatro dos Bancários (SQS 315), Brasília, 12.02.2016.

O relacionamento humano é, definitivamente, o mais fértil dos temas. Mesmo com um roteiro muito frágil contendo meia dúzia de frases daquelas que tanto ama a Martha Medeiros e umas piadinhas bem manjadas pode-se chegar a um sucesso no teatro. Esse é o caso do espetáculo que tem lotado sessões da última temporada de verão, em Brasília. Na plateia, casais de várias idades e estilos: pré-adolescentes com cabelos coloridos, gordinhos grudados em mulheres que fazem a linha femme fatale usando calças super justas em tons próximas da cor da pele, senhores e suas senhoras e, claro, os indefectíveis rapazes bem jovens de barba e suas partners platinadas. Pouquíssimas pessoas desacompanhadas. Era quase constrangedor. O olhar dos casais para solteiros, duplas masculinas ou femininas quase traduziam a pergunta: “o que você está fazendo aqui?”.  Sem problemas. Não se pode esquecer que levando um título com insinuação sexual, qualquer peça está condenada a atrair muita gente e a promover um clima de “acerto de contas” no saguão de espera, afinal, a expressão “nossa vida” é sugestiva para todo mundo.

Quando se trata de encontrar no universo do relacionamento humano as situações mais corriqueiras da vida de um casal de namorados que dorme junto há três anos, então, os 80 minutos do espetáculo tornam-se pouco tempo para se promover uma árdua busca de risadas. Ainda assim, o texto não flui com a leveza muito comum ao gênero. Emolduradas por duas pretensas grandes lições de moral sobre o que possivelmente seria o amor, a peça não diz absolutamente nada a respeito. A atriz abre e fecha a cena com um discurso meio incompreensível e cheio de solenidade. Parece que ela quer dizer isso, mas diz aquilo ou não diz nada. Muitas cenas “atolam” numa repetição inútil. Os atores mudam de marcação de modo quase a incomodar. O público só parece ter ficado verdadeiramente à vontade quando se passou a impressão de que os protagonistas começaram a improvisar. Os clichês pululam, aquelas perguntas imbecis do tipo “com quantas pessoas você transou” e o “apaga-acende” da luz para sugerir tentativas de fazer sexo faz o expectador se entortar e desentortar na cadeira muitas vezes. O curioso é que, mesmo considerando que as fotografias da divulgação da peça mostrem os atores seminus, eles não tiram a roupa durante a peça. É só para garantir plateia. Atravessam a história de modo comportadíssimo: ela com um vestido amarelo e ele com calça preta, camisa branca e suspensórios.

Há tiradas engraçadas, claro. Previsíveis, no entanto. O casal Isabel e Pedro chega de uma festa elegante e, antes de ir dormir, ainda com suas roupas chiques, começam a fazer cobranças. O rapaz toma whisky e a menina fica às voltas com suas tentativas de convencê-lo de que é hora de transar. Convenhamos: dá para rir quando dois jovens com seus 30 anos estão dizendo que fazem sexo uma vez por semana? A conversa parece meio fora de lugar. Ou ainda: você iria cair na gargalhada ao ouvir o rapaz e a moça fazendo contas silenciosas sobre o número de parceiros sexuais que tiveram e repetindo esses números à exaustão. Por favor. A peça ainda explora um bocado de lugares-comuns nas relações homem e mulher. E, claro, não deixa de fazer menção à homossexualidade servindo de gancho para uma tirada que a garota faz para entender a razão das dificuldades colocadas pelo rapaz para ficar na cama com ela. O momento de aparente clímax sexual ficou engraçado por causa da extraordinária insatisfação da personagem. A atriz deu um show de interpretação.


Uma única ruptura do diálogo entre o casal ocorre quando entra, pelo meio da plateia fazendo malabarismos entre os casais, um stripper com  chicotinho de sadomasoquista. O ator faz várias acrobacias antes de chegar ao centro do palco. E durante sua permanência na cena, realiza movimentos acelerados. O som prejudicou a compreensão da importância desse corte na peça. Mas, de toda maneira, evitou a saturação da conversa que não parecia avançar. A “lição” de conclusão pareceu sugerir que é bom estar junto quando se está junto de verdade e quando a relação não está boa, existe algo muito simples a fazer: terminar. Parece até que é fácil assim, né?! O que serviu de palavra de ordem final, antes de apagar as luzes, foi a frase magistral: o que importa é ser feliz! O público aplaudiu. Vieram os patrocinadores, os atores pareciam cansados. Eles defenderam o belo ofício que abraçaram. O teatro vale por si. Nunca me arrependo de ir ao teatro. Apesar de ser uma arte autodestrutiva como dizia meu saudoso amigo Caíque Ferreira, é uma arte linda em todas as suas manifestações. Viva o teatro! Parabéns Bernardo Felinto!.
Rafael Vieira
Brasília, 14.02.2016

domingo, 31 de janeiro de 2016

PRECE CEARENSE

Crônica 001

A última semana de janeiro de 2016 foi um tempo de aventura especial em Fortaleza. Chuva todos os dias acompanhadas de um mormaço assustador. E os gordinhos que se virassem. Era o tempo e pronto. Haviam nesgas de sol em algum começo de manhã e finais de tarde. O resto era só água que caía com vontade. Todo mundo estava feliz com a situação e as únicas lamúrias vinham de turistas que sentiam as férias arruinadas. Mas isso era pura bobagem. Na TV se confirmava o que as pessoas mais esperavam: o dobro do volume esperado de chuvas estava deixando os açudes do Ceará em bons níveis para se enfrentar os meses de seca que prometiam também serem abundantes. E o povo daquele lugar fazia uma diferença colossal para qualquer visitante. Pura simpatia, gentileza e muitos sorrisos. Mesmo quando não se importavam com a gente, as pessoas eram agradáveis porque conversavam animadamente e diziam, em voz alta, expressões curiosas. Num ônibus, ouvi uma mãe dizer a um garoto que tinha, no máximo, uns quatro anos: “se ajeite, macho! ”. E na praia, uma senhora dizia a outra: “mas num é, mulher”.

Leonard Martim e Dragão do Mar
Todos os dias havia um programa obrigatório: ir a um Centro Cultural construído numa antiga área portuária durante o governo de Ciro Gomes, nos anos de 1990. O espaço foi feito para o encontro das pessoas. Há restaurantes, bares, palcos em perfeita harmonia com teatros, anfiteatros, museus e passarelas ao lado de um velho casario. Tudo isso bem na frente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição que é parte do Seminário da Prainha, fundado em 1864, onde também funcionaram o ITEP, Instituto Teológico de Pastoral do Ceará e o ICRE, Instituto das Ciências da Religião. Hoje, as duas instituições despareceram para dar lugar à Faculdade Católica. O ITEP foi dirigido por vários anos por um nobre teólogo da Moral, o professor Leonard Martin. Um padre redentorista irlandês que se naturalizou brasileiro e faleceu ainda muito jovem em 16 de março de 2004. Ele era brilhante. Fez seu doutoramento no Brasil e se ocupou com a Bioética. Foi membro do Conselho Nacional de ética em pesquisa do Ministério da Saúde e escreveu um dos melhores textos que conheço sobre homossexualidade na perspectiva cristã para servir de apoio na discussão da Câmara dos Deputados, em Brasília. Eu sempre achei que não teria mais graça vir a Fortaleza sem me encontrar com o Léo.

Braços de Morfeu
Dormi as manhãs inteiras. Todas, sem exceção. Minha relação com o sono é algo ainda enigmático às vésperas de completar 53 anos de idade. Pareço um adolescente que não suporta levantar cedo. Eu coloco em questão as verdades mais sólidas, na hora de me levantar, de manhã. Um amigo me fez uma oferta preciosa no ano passado: me deu de presente, uma pequena imagem de Jesus dormindo. Tenho uma felicidade ímpar quando olho para ela. Coloquei-a estrategicamente ao lado da minha cama lá na minha casa. Portanto, não dou notícias sobre coisa alguma que tenha acontecido na parte da manhã desses dias. Estava sempre dormindo. O cardiologista que me atende disse, depois de verificar o resultado do mapa de pressão de 24 horas, que o meu sono tem me garantido muitos benefícios. Aí juntou a fome com a vontade de comer. Já não tenho culpa por dormir muito, há anos. Mas, me aborreço, mortalmente, com a impressão que passo de que não trabalho muito por causa disso. Ninguém vê a hora que vou descansar a noite e que não durmo à tarde. O passeio a Fortaleza me deu, enfim, uma vida de bebê: sono de 12 horas por dia durante uma semana.

Jeh, Alessandro e o taxista
Jantei várias vezes num restaurante chamado “Alma Gêmea”. No primeiro e no último dia, estavam cantando para animar os comensais, dois jovens lindos e talentosos: Jéssica e Alessandro. O repertório era delicioso. Passavam por compositores nordestinos como Caetano Veloso, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Pity e Fagner até Legião Urbana e o mixer de Os Tribalistas. O tempo da refeição se estendia por horas. E eu nem me lembrava das histórias de restrições que o meu novo estado de saúde exige que é um compasso de espera pelo diagnóstico do Diabetes. Comia os pratos que mais combinavam com o prazer da ocasião. E nem eram tão caros. Tudo junto ficava quase pela metade do preço de um jantar razoável em Brasília. A voz da Jéssica, um primor. A do Alessandro, segura. E ainda eram acompanhados por um percussionista que transformava dor e desconforto em música. Ele tocava um instrumento que exigia que se sentasse e tocasse com a coluna em curva. Eram várias sessões de alongamento entre as canções e as caretas que logo tornavam-se sorriso e simpatia. Na última noite, veio a cereja sobre o bolo. Depois do jantar e do show da Jeh e do Alê, tomei um taxi para ir para casa. O taxista tinha uns sessenta e poucos anos, barba por fazer. Logo que entrei no carro, ele disse: “olha o que tenho para você! ”. Colocou uma música do Belchior e cantarolou junto. Apesar dele dizer que era o “maior” sucesso do cantor, eu não conhecia. Em seguida, quase chegando em casa, ele quis que eu ouvisse “Paralelas”. Quando cheguei, paguei e, ao sair, ouvi ele dizer: “vou ficar aguardando você entrar”. Não havia ninguém na Portaria. Voltei-me para ele e disse: “vou ter de entrar pela outra portaria que fica no outro lado da rua”. Ele respondeu sorridente: “Eu acompanho você”. Fui andando e rezando. Na pessoa daquele senhor desconhecido estava a mão de Deus me amparando, me protegendo. Enquanto andava, fiz minha prece. Depois que cheguei na outra portaria, entrei, acenei e agradeci. Ele disse: “Ele está no Uruguai!”. Eu fiquei meio confuso. Ele sorriu ainda mais largamente e completou: “o Belchior!”. E foi embora.
Rafael Vieira, 28.01.2016

CONFIRA
Chuva em Fortaleza
Homossexualidade na Perspectiva Cristâ. P. Leonard Martin, CSsR
Jéssica e Alessandro



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

DE NOVO: A MORTE E A ELIANE

O repórter fotográfico, Marcelo Min, que colaborou com as grandes matérias da Eliane Brum sobre a morte morreu no dia 28 de agosto. Ela se derrama em um texto profundo e emocionante. E, como sempre, não fala da morte como algo distante, feio, esquisito, repulsivo. Ela trata da vida e compartilha com os leitores o testemunho do seu amigo fotógrafo. E mais: reafirma a grandeza do companheirismo profissional e da amizade eterna. Eu repasso a riqueza de um texto dessa grande jornalista. A texto foi publicado na Revista "Época".




A dolorosa e tocante despedida de Eliane ao amigo e fotógrafo Marcelo Min, "que não queria morrer, mas morreu como quis: vivo".

Rodopiando em Min
Morre o fotógrafo que amarrava as pontas da vida em imagens
ELIANE BRUM*
28/08/2015

Lembro-me primeiro de uma noite de inverno. Marcelo Min e eu testemunhávamos, como repórteres, os últimos dias da vida de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que nós dois aprendêramos a amar, ao acompanhar o seu morrer por 115 dias. Naquela noite, Ailce parecia ter começado a partir. Ela só abria os olhos para olhar o mundo do qual se despedia e para pedir água. Nós molhávamos os lábios dela e ficávamos olhando o mundo com ela. Nem Min nem eu conseguimos deixá-la naquela noite. Nos enfiamos num quarto vago na enfermaria de cuidados paliativos do hospital, onde seu último inquilino acabara de se ir. Eram duas camas e não havia lençol. Deitamos sobre o plástico e Min, sempre generoso, me deu o único cobertor fino para atravessar uma madrugada gelada. Até ancorarmos no dia seguinte, ele ficou repetindo que não sentia frio, mas tiritava. Naquela noite do inverno de 2008, ficamos ali, no escuro, dois passageiros clandestinos daquela enfermaria entre a vida e a morte. Conversando para costurar a madrugada e a dor com palavras. 
Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida.  (Foto: Marcelo Min)
Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)
Min me contou que queria morrer como seu Antônio, um homem que ele tinha fotografado em outro quarto, seu Antônio que o recebia com uns olhos brilhantes, molhados de vida, mais vivo que todos, e de imediato contava uma história. Min foi o primeiro a perceber que seu Antônio acreditava que, enquanto emendasse uma história na outra, estaria vivo. E um dia apenas fechou os olhos para anunciar que sua história tão cheia de “um tudo” havia chegado ao fim. 
Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)
Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)
Marcelo Min morreu na última quinta-feira (27/8). E eu ainda não posso afirmar que isso de fato aconteceu. Aqueles que amamos morrem devagar dentro da gente, e a qualquer momento eu sinto que ele vai chegar com aquele jeito meio tímido, com aquele sorriso inteiro bom, e dizer: “Oi, Eliane”. E depois faríamos alguma reportagem em que invariavelmente alguém o chamaria de “japonês”. E nós dois riríamos por causa dessa sina de que no Brasil todos os descendentes de orientais viram “japonês.” Min era descendente de coreanos. Mas ele morreu. E quando me pediram para escrever um texto sobre ele, minha reação imediata foi dizer: “não consigo”.  Como escrever sobre o Min quando a morte dele me rouba todas as palavras? Naquele momento, eu me sentia como uma criança que ainda não sabia onde as palavras moravam. Agora, algumas horas depois, volto a ser adulta. Sei onde as palavras moram, mas sei também algo que jamais vou superar: as palavras são faltantes, não dão conta da vida. Então, Min, me perdoa por me faltarem palavras para contar da falta que você nos faz.
Na manhã de terça-feira (25/8), Min deixou os filhos na escola que ele e Luciana Benatti, sua companheira, ajudaram a criar. Sim, juntos eles eram assim, o Min e a Luciana. Criavam um mundo melhor, inventavam o que precisava existir. A gente nem sabia que precisava, mas eles sabiam. E inventavam. Min se despediu de Arthur, 7 anos, e de Pedro, 4, e foi ao Parque Villa-Lobos para fazer algo bem Min. Nos últimos dois anos ele tinha decidido aprender a patinar. E quando Min decidia fazer alguma coisa, fosse um gesto ou uma aventura arriscada, ele fazia. Ficou assistindo a tutoriais na internet e acabou por se tornar um artista da patinação. Luciana olhava para ele: “Aos 46 anos, Marcelo?”. Luciana sabia que Min era livre. E o amava livre. Min então rodopiava. Ele rodopiava quando se sentiu mal. Não houve queda, nem nada assim. Era um aneurisma no cérebro, um inimigo silencioso dentro dele. Logo Min perdeu a consciência. Dois dias depois, os médicos anunciaram sua morte cerebral.
Marcelo Min foi meu companheiro em todas as reportagens sobre a morte. E foram várias. Entre 2008 e 2010 empreendemos juntos essa travessia. Acho que só ele seria capaz de olhar para a morte da maneira revelada por suas fotos. Com tanta delicadeza. Tem gente que escreve com a ponta dos dedos. Min fotografava com a ponta dos dedos. Foi assim quando registrou uma mãe com seu bebê morto nos braços. Era uma foto tão difícil. Estávamos contando a rotina de uma UTI neonatal com cuidados paliativos, narrativas de mães que pariam filhos já condenados à morte próxima. A foto era um ritual que dava memória a um momento da vida daquelas mães e pais, uma certeza de que tinham cuidado da melhor forma que puderam, haviam feito todo o possível. Tinham sido mães e pais, ainda que por um curto espaço de tempo. A foto era o registro de uma história, ainda que essa história fosse um sopro. Mas só Min poderia fazer esse retrato para publicar numa revista de circulação nacional.
Marcelo Min troca bebê (Foto: Marcelo Min)
Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)
Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)
Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)
Nessa travessia reportera por contar o morrer, Min era mais sábio do que eu. Ele compreendia melhor a matéria da vida. No mesmo período em que peregrinávamos por camas onde a existência se encerrava, ele se dedicava com Luciana a um outro projeto, o de contar o nascimento. Ativistas, ele e Luciana, do parto natural e humanizado, Min ora era chamado para registrar estreias de bebês no palco do mundo, ora era chamado para documentar a despedida de quem deixava a cena. Vivia sob o imperativo de dois gritos, às vezes quase simultâneos: “Vai nascer!” ou “Está morrendo!”. Partia para ambos os destinos com a mesma serenidade e a mesma entrega desbragada. Nascer e morrer era muito semelhante, no ponto de vista dele, eram partes de um mesmo processo. O olhar amendoado de Min amarrava as duas pontas da vida. Nunca consegui confirmar o autor dessa frase que estou sempre repetindo, por perfeita que é, mas o legado fotográfico de Min deu uma imagem definitiva a esse aforismo: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.

Luciana Benatti no parto de Pedro (Foto: Marcelo Min)

Luciana Benatti no parto de Arthur (Foto: Marcelo Min)
Arthur, o primeiro filho de Luciana e Min, fez sua estreia no mundo numa banheira de hospital e foi devidamente fotografado pelo pai. Pedro nasceu numa piscininha inflável, decorada com alegre fauna marinha e abastecida por uma mangueira e um velho chuveiro Lorenzetti, na sala do apartamento. Quando sentiu a primeira contração, Luciana achou que era a lasanha de berinjela do jantar se manifestando. Não era, e logo o porteiro do prédio foi ficando alarmado com as mulheres que chegavam de malinha no meio da noite para ajudar no parto em casa. Piorou a situação do porteiro quando Luciana começou a dar aqueles berros primais e libertadores na madrugada. Antes de começar a gritar nas contrações mais fortes, avisou ao pequeno Arthur: “Filho, para o irmãozinho sair da barriga, a mamãe vai ter que dar uns gritos de leão”. Arthur adorou. E a partir daí, sempre que sua mamãe leoa berrava, ele ria e batia palmas na maior empolgação. Foi assim, no estilo Luciana e Min de ser, que Pedro nadou para a vida. Marcelo e Arthur, pai e filho, cortaram o cordão umbilical. Quando Luciana acordou no dia seguinte, Marcelo serviu pão com requeijão. Eles eram assim. Eles serão sempre assim, juntos na memória da gente.
Luciana Benatti e Pedro (Foto: Marcelo Min)
Luciana Benatti e Arthur (Foto: Marcelo Min)
Na véspera do dia em que perdeu a consciência, Min levou os dois filhos para o estúdio e passou a tarde fotografando-os. À noite, uma amiguinha foi dormir na casa deles. Min botou as crianças na cama e, de novo, fotografou-as. Depois, ele e Luciana abriram uma cerveja e ficaram conversando sobre a vida. Eles sentiam-se num grande momento, “plenos” foi a palavra escolhida por Luciana. Viviam segundo suas próprias escolhas. Min disse a Luciana sobre como se sentia feliz por ter escolhido trabalhar menos para poder colocar os filhos na cama, como acabara de fazer. Min tinha escolhido uma vida viva. E sabia disso.
Nascer e morrer não foram os dois únicos temas da fotografia de Marcelo Min. Ele documentou muitos Brasis, vários mundos. Alguns deles comigo, muitos com outros repórteres. Várias vezes sozinho. Min não era um fotógrafo que esperava. Era ele mesmo um desbravador de histórias. Se o principal instrumento do repórter é a escuta, Min escutava com os olhos. Dentro daquele semblante sereno, habitava uma vontade indomável. Min era apaixonado e obcecado por suas paixões. E uma delas era a justiça. Foi assim na desocupação do Jardim Edite, em 2009, quando a especulação imobiliária expulsou 800 famílias depois que o metro quadrado daquela região de São Paulo se valorizou, entre a Avenida Berrini e a Ponte Estaiada. Alguns jornalistas acreditaram na versão oficial e deram a notícia de que todos os moradores haviam deixado o lugar.Mas Min estava lá, onde um repórter deve estar, por sua própria conta, sem que nenhum chefe tivesse mandado ou pedido. Ele acompanhava há meses o cotidiano da favela para contar o mundo invisibilizado, ainda que gigantesco, escancarado para todos que passavam pela avenida, mas preferiam não vê-lo. Min provou que havia restado uma casa, uma resistência. Registrou os últimos gauleses, Marcão da Pipoca e sua família, diante de uma casa pintada com “a cor do céu” entre os escombros do inferno de uma cidade que mastiga os mais pobres. Depois, me chamou para contar a história.
O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)
O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)
Ailce, a mulher que acompanhamos no seu morrer, nos ensinou que pensar sobre a morte é pensar sobre a vida. E pensar sobre a vida é pensar sobre o tempo. Ailce havia adiado demais e um dia descobrira que seu tempo tinha acabado. Ensinou, a mim e a Min, que o tempo é a delicadeza inegociável. Acho que Min aprendeu esse ensinamento essencial, talvez o mais profundo, melhor do que eu, que agora me resto a lamentar todas as vezes em que adiei para o dia seguinte o encontro que me levaria até ele. Não há dia seguinte. Não há nem mesmo hoje. Há esse instante, agora, em que tecemos nosso tempo. E sobre isso não podemos negociar, não há o que vender ou comprar. O tempo nem mesmo se aluga. O tempo tem de ser nosso. Já. Tomado de quem nos tomou, para ser tecido em nossos próprios termos.
Na noite em que ele partiu, Luciana reuniu os amigos e os familiares que haviam ido ao hospital esperar com ela a confirmação da morte cerebral. Ela já era querida naqueles corredores, a mulher que chegara lá com o homem que amava, dizendo: “Se ele tiver que ir, deixa ele ir. Nós falamos muito sobre isso, não queremos nada invasivo, nenhum tratamento doloroso e inútil. Vamos respeitar o tempo dele”. Numa roda de amor, foi lido um texto escolhido por ela. E Luciana depois contou um pouco do Min. Ela disse muito. Disse também: “O Marcelo queria mudar o mundo. E acho que ele mudou”. Sim, ele mudou. O mundo e cada um de nós que o carregaremos no lado de dentro. Sei que sou um pouco o que Min fez de mim em nossas andanças. Pedaços de Min em mim. Em nós.
Min morreu. E Min sempre me soou um nome – sobrenome – tão enigmático. Lembro-me agora da poesia de Drummond. E a adapto para o Min que nela é: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em Min. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
Min partiu. Obedecendo ao seu desejo, claramente pronunciado em tantos dias, seus órgãos foram doados para fazer outros seguirem vivos. Min partiu-se para continuar íntegro. Antes, ele escreveu com Luciana um livro chamado Parto com amor. Min agora parte com amor.
Em um vídeo sobre a reportagem da morte, Min contou que Antônio, o contador de histórias, o ensinou a morrer: “Eu quero morrer que nem o seu Antônio. Até o último momento bem-humorado, até o último momento cheio de vida”.  
Marcelo Min não queria morrer, mas morreu como quis. Rodopiando em seus patins, voando.
Min morreu vivo.
*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista