segunda-feira, 18 de abril de 2016

LIVRO

Na pele de uma Jihadista

O domingo 17 de abril de 2016 foi considerado uma data "histórica" para o Brasil. Um processo de admissibilidade de impedimento da Presidente da República em continuar cumprindo um mandato legítimo foi votado por 511 deputados presentes numa sessão histriônica na Câmara Federal. Eu acompanhei tudo isso com um olho e o outro me serviu para devorar a emocionante aventura de uma jornalista francesa que se meteu a investigar o mundo dos jovens aliciados pelo Estado Islâmico e acabou se envolvendo com um terrorista que era membro da hierarquia da ocupação na Síria e no Iraque. Por razões de segurança, tirando os nomes dos terroristas citados, o dos outros personagens da história são todos fictícios, inclusive da autora do livro que prefere ser chamada de Anna Erelle. A minha experiência dominical bate bem com o que ela mesma diz no livro que jornalista é que nem cachorro: está sempre em busca de um osso para roer.

Bilel

A história é real, portanto. Começa como apenas mais uma investida da francesinha no chamado jihad 2.0 da propaganda fundamentalista islâmica. Ela cria um perfil falso no Facebook e se passa por uma quase adolescente, convertida, e muito interessada em conhecer tudo o que tem a ver com a jihad, isto é, a guerra santa dos radicais muçulmanos.  Bisbilhota bastante o tema até o dia em que é abordada por um combatente francês que se encontra na Síria: Bilel. O livro inteiro é o detalhamento desse contato. Bilel se interessa pela garota que a jornalista interpreta – com muitas dificuldades quando as coisas começam a se complicar – e chega a envolvê-la numa aventura maluca que tem por objetivo leva-la para a Síria como sua mulher. Ele é um emir, isto é, uma pessoa que ocupa cargo de confiança numa hierarquia islâmica que gosta de exibir armas, riqueza e tem um discurso duro da religião. Ele considera que o califado vai dominar o planeta e toda a humanidade vai viver segundo as leis da charia, leis fundamentadas não no direito, mas na religião e na opinião de líderes religiosos.

Mélodie

O nome da personagem inventada pela jornalista é Mélodie. O terrorista, na verdade, se apaixona por Mélodie. E esse fato transtorna a vida real da jornalista. Ela que é freelancer de dois jornais e tem um namorado fica completamente atordoada com o que vai descobrindo nas longas conversas no Skype com seu conterrâneo que fala bem o árabe. Ela se veste como muçulmana e diz que o faz escondido da irmã mais velha e da mãe. Personagens que também foram inventados por ela para se fazer convincente, sobretudo, para ajudá-la a sair das conversas quando os diálogos começam a se tornar muito difíceis. Ela sempre diz que a irmã chegou ou que a mãe está subindo as escadas e ela precisa desligar. Aos poucos, no entanto, ela vai descobrindo a personalidade monstruosa do sujeito que a enche de afagos. O que ela não contava é com a aflição que ele impõe sobre ela ao fazer perguntas desconcertantes e que ela não pode responder como uma adulta para não perder o fio da linha da personagem que criou.

Síria em guerra

A matéria é supervisionada por jornalistas com quem a autora vai trocando ideias no correr da investigação e o ápice da confusão se dá quando Bilel resolve por própria conta que ela é sua mulher e já providenciou os papéis para recebe-la na Síria em guerra. A jornalista procura se dedicar a personagem até o limite, quando briga com o terrorista e faz sumir sua personagem. Depois da publicação da reportagem, o nome de Bilel é confirmado como o braço direito de um dos terroristas mais perigosos do mundo: Abul Bakr al-Baghdadi. Entre suas lambanças, as notícias confirmam que ele participava de fuzilamentos em massa, decapitações, queima de pessoas vivas. A história mostra, finalmente, o poder do terrorismo digital. Uma realidade que parece distante para quem vive no Brasil. Pode ser até mesmo desproporcional, mas não consegui dissociar essa história do que se verifica nas redes sociais nos últimos meses: uma guerra absurda e fratricida. Uma linguagem de terror. O impeachment da presidente parece ter se tornado uma espécie de “libertação”, qualquer coisa longinguamente parecida com aquela dos jihadistas. Espero que depois que a presidente sair do Planalto, quem ocupar seu o lugar não deixe a população como Bilel deixou Mélodie: assustada, com medo e profundamente decepcionada.
Rafael Vieira
Aparecida, 18 de abril de 2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário